terça-feira, 29 de setembro de 2009

Oceano

Peguei-me novamente relembrando o passado

Na vida havia todo meu sorriso estampado

Pela alegria de te ter para mim.

Agora, ouço apenas o barulho do pássaro

Que chora todas as mágoas

Por não o ter mais aqui.

Desculpe se eu não o fiz feliz

Pois se já não me quis

É porque o sonho acabou de vez.

Então se desfez em mim o pedaço de ti

Mas por apenas alguns instantes

Pois ele já se refez.

As minhas mãos não conseguem soltar as tuas

Mesmo já deixando os meus sonhos de lado

Sei que o presente grita lá fora e me puxa

E eu aqui dentro, agarrando o passado.

Nosso amor foi um oceano inteiro

E mesmo aqui na areia, permaneço molhada.

Sei que durante as marés nosso amor foi verdadeiro

Mas hoje já não passa de águas passadas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A filha do vento


Não sou compacta, nem simples. Não caibo dentro de uma caixa de regras e interesses. Sou do ar. Franca demais. Vivo por um triz comigo mesma, me agrido, me refugio do mundo, mas não o ignoro. Se não pareço demonstrar o que sinto? Sinto muito. Há muito em mim para se sentir. Prefiro os atos às palavras. Gosto de sabores improváveis, e vejo simplicidade como luxo para poucos. Das músicas, as letras geralmente me atraem mais que os acordes. Talvez seja o estúpido romantismo. E há quem não acredite... Meus dramas são anônimos, meus inimigos são personagens que eu mesma crio. Não tenho medo de nenhum confronto, com ou sem eles, sempre fui forte. Mas às vezes fujo como uma criança da briga na porta da escola e choro feito um bebê, mas apenas as paredes vêem. Não tenho paciência para gente efusiva. Acho até que a maioria das pessoas é hipócrita, que os amigos só são amigos até o limite da impessoalidade. Mas guardo comigo as estrelas que me cedem, até mesmo as discretas e pequenas que se intimidam com todo meu exagero. Tenho que tirar uma parte do dia para olhar pro ontem, ou pro amanhã. É quase um vício. Aproveito o trânsito lento, o fone nos ouvidos, e o pratico. Sinto saudades de coisas que não vivi. Amo ao extremo. E há quem não acredite... E se me encontrar sozinha? Não, eu não estou triste. Geralmente as pessoas acham graça das coisas que eu falo ou faço, e isso me diverte mais do que a elas. Talvez seja por isso que quando não estou fazendo caretas, vozes e até coreografias engraçadas, acham que alguém morreu. Costumo acreditar que um copo pela metade está meio cheio, e não meio vazio. Ser positivo te garante pelo menos o direito a fracassar e se sentir idiota. Às vezes isso é bom para se situar. Ainda acredito em amor eterno, mas já chega dessa história de príncipe encantado. Laquê nos cabelos e frufrus não me atraem como um careca bobo que me faz querer viver, me faz querer acertar, ser melhor pra que seja sempre, mas que me mata de cócegas, mesmo isso não sendo nada legal, ok? E sabe, mato um leão por dia. Sirvo a mim de companhia, mas não abro mão de estar com os meus. Escrever é minha terapia, e sou tudo e ao mesmo tempo nada que lêem em minhas poesias. Há várias de mim em uma só, talvez como Pessoa e seus heterônimos. Adeus nenhum me convence do fim. E mesmo as situações em que me vejo no fim da estrada já não me assustam mais. É necessário pés com vontade, coração e mente com coragem para que as estradas se formem. Ah, e de estradas eu entendo.

domingo, 20 de setembro de 2009

Hiato


A lua dos poetas tem sabor de eterna ausência.
Não é de pouco amor que o poeta faz sua frase
É sim do muito que pra alguns se torna vaga lembrança,
pois mesmo quando a alma se cansa, ele ainda dança pro amor ver.
Pro amor ver que mesmo morto ele vive.
Então esquece do rosto falso daquele abraço

...terno

E talvez o medo de desunir os corpos seja o fim do meu

...poema

E mesmo que o amor não se acabe, pode ser o começo do meu medo.
Os nossos momentos se tornaram pra mim segredos, que não os guardo.
É melhor calar um momento, do que gritá-lo pra que ele viva mais,
e puxar a raiz fraca de tanta sentimento por temer voltar atrás.
Então fico muda para poder escrever o que quero chorar.
Mas se eu chorar, deixe as lágrimas te cantarem uma canção..

sábado, 19 de setembro de 2009

Menina da Chuva


Agora o tempo é tão pouco

O que devia ter acontecido há tempo,

Aconteceu.


Dois intocáveis estranhos

Se encontraram, se amaram,

E agora o dia nasceu.


Ele já a perdeu.

Ela quis continuar a vagar por ai.

Saiu de pressa, antes que se arrependesse

De deixar aquele que a fez sorrir.


Talvez porque ele não se importou.

E ao vê-la ir embora,

Pela primeira vez,

Percebeu que a amou.


Hoje ao ver a chuva que cai lá fora

Lembrou-se dela,

Que serena, como a noite fria,

Era a menina da chuva.


Que agora vive

Longe do mar,

Longe das lembranças que você sempre a faz lembrar.


A desunião de corpos unidos

E a solidão de quem vivia a dois.

Fazem hoje dela inspiração

Para a vida que virá depois.


Depois de esquecê-lo,

Mesmo com a certeza de que não conseguirá,

Jamais.

Casulo particular


Juro dizer a verdade. Nada mais que a verdade.

Hoje já não me importo mais com as faces que escondi por tantos anos, e nem me envergonho pelo eu que carreguei nas costas pela vida.

A poeira então desceu dos meus braços e revigorou em mim o bronze coberto pela sujeira de tanta lama que juntei na estrada.

Soprei lá do fundo do pulmão e libertei meus vícios, minhas angústias, minhas mágoas.

Nessa terra de gente que não perdoa eu lavei muito chão de ouro, e vivi muito tempo sob chão de barro, mas quer saber? Isso não era o que mais doía.

A dor mais intrigante era aquela sutil e pequena dor na alma. Dor da perda, da falta. Ah, essa sim doía muito!

Tive que admitir que nós viemos ao mundo sozinhos em nossos casulos, e isso me era perturbador. Era demais pra mim.

Queria que nessa vida eu pudesse habitar no peito de todos, fazer moradia perpétua...

Nunca fui cigana e tão pouco nômade, eu sempre me ancorei nos mares mais perigosos e acreditei até o fim que fosse bem-vinda.

E a ferida que se abre com sorrisos hipócritas é uma das chagas dessa dor da falta que atinge a alma. E pra que? Por quê?

É, vivi por isso. Até hoje não sei ao certo se as pessoas sentem necessidade de atuarem na vida, ou se a vida é uma grande peça pra poucos atores. Eu nunca soube atuar muito bem.

Uma vez mamãe me disse que conhecia minha cara de mentira – eu sempre esbocei um sorriso manso e discreto no cantinho da boca, com as mãos no cabelo e um desvio de olhar que era inegável. Ela sorria e dizia – ‘pode me dizer a verdade agora, pois na mentira eu já acreditei. ’

Mamãe sabia que a vida era dura. Sabia que uma hora ou outra eu ia descobrir as verdades sobre alguns sorrisos, alguns abraços, alguns beijos. Ela só não me avisou que seria tão duro. Até Judas vir me beijar.

Até o aperto de mão corroer os ossos e o abraço esmagar meu peito como uma prensa.

Eu precisava sentir na derme, na epiderme a dor que essa chaga trazia. E eu senti.

E o trauma foi grande, admito. Passei metade da vida tentando conhecer a pessoas antes de esperar suas reações. Em vão.

Elas precisavam temer. Só assim eu as conheceria. Em meio à necessidade é que lagarta vira borboleta, que sabe a hora certa de voar.

E eu quis voar cedo demais. Na primeira tentativa eu me vi indefesa, até quis voltar, mas eu já estava no céu diante de pássaros gigantes, assustadores, eu diria.

Já não havia mais mamãe, papai... Era eu por eu. E o medo por mim.

E quantas quedas eu sofri... Quantos caminhos errados segui.

Tanta gente perversa eu confiei.

Os sorrisos eram tão reais... Seria cruel demais eu desconfiar de gente tão boa.

Seria mesmo, mas a vida é cruel.

Eu não vim armada, protegida, tampouco com estratégia nas mãos.

Vim só com os vestígios do casulo ainda presos às minhas asas, algumas dezenas de conselhos clichês e a saudade de casa.

Casa... Ah! Que vontade de voltar...

Esconder-me dos cruéis, das ciladas, das aves gigantes, dos atores.

Filtrar cada sorriso, cada palavra. Absorver só as que transpareçam sinceridade.

E como saber se os que elas transparecem, de fato, são transparentes?

Eu nunca soube. Nunca fui boa atriz. Não distingo uma boa mentira de uma má verdade. Mas já sei me proteger,

E dessa vez não foi mamãe quem me ensinou...

Foram os medos das aves gigantes e dos atores cruéis.

A eles sou grata pela experiência adquirida,

E sou ressentida pela dor sutil e lenta que eles me causaram.

De frente ao espelho



Se cuida. Veja bem. Tira a mão daí. Já ta tarde, não acha? Mãe, eu não quero! É gostoso, prova.. Não acha que já está grandinha demais pra isso não? Você é muito nova ainda..
Não é assim, veja como eu faço. É, melhor não seguir o exemplo da família. Seca esse cabelo, menina! Ta frio, vai sair assim? Eu te amo. Eu também. Eu também o que? Te amo.
Sinto muito, da próxima vez eu acerto. Errei de novo, droga. Calma filha, tenha fé. Eu sei, eu vou conseguir. Biscoito? Eca. Você é muito louca.
Vamos beber água em outro lugar, alguma que seja mais líquida. Você ta fofa hoje, o que houve? Marííí, joga vídeo-game comigo?
Se decide, menina. Ninguém demora tanto pra se arrumar... Já arrumou seu quarto? Essa é sua mala, vai morar em outro país? Ta escrevendo o que ai? Você ta bem? Não fala assim com seu irmão. Não se mete na minha vida. Conta uma história pra mim? Põe a mão pra eu segurar. Tem que ver os brincos Ploc 80 que eu comprei, iguais aos seus. Eu chorei muito hoje, minha vida é um lixo. A minha também. A gente ta assim porque? hahaha. Ela escreve, sabia? Igual ao pai. Diferente da mãe. Diferente de todos.
Lembrou? Não né? Irresponsável! Ah, a minha filha? É super responsável.
Cresceu hein. Olha só como ela está! Vai aonde assim? Quando a gente vai saber? Mariana, vai de vestido? Amiga, eu preciso de você! Vou à igreja, tchau.
Cara de boooi, sua maluca. Vê se me liga ta? Ai ai, esse telefone não toca! Droga. Droga.
E essa vida, e eu?

Mistura tudo e acrescenta as letras, R I N A M A A, na ordem certa, claro.
E quem sabe os diálogos me definam, e as incertezas estejam certas?
Ok, agora pode dormir, amanhã tem aula. Eu já estou de férias. A gente nunca vai se separar. É pra sempre. Que saudades. Quanto tempo. Quanto frio. Quantas mentiras. Eu te amo. Eu não minto. Verdade. Eu te amo. De novo.


O diário do pássaro


Vivo. E com tão pouco eu sou tão feliz.

Aprendi a abrir as asas quando ainda nem havia sido gerada,

Aprendi a correr antes de andar.

Sonho com a vastidão dos céus, mas não troco nada pela pequeneza de ser quem sou.

Acredito que tudo que acontece tem um propósito, se não eu não estaria aqui, vivendo como vivo.

E idealizo. Idealizo tudo para dar certo, monto milhares de quebra-cabeças num só instante, penso mais do que qualquer outro mortal.

Sou completamente diferente do que você se acostumou a gostar, vou te fazer ser curioso até descobrir quem sou de verdade. E isso pode te irritar, te fazer desistir.

Aos que chegam lá, na minha vida descansam por muito tempo.

O espelho me mostra um lado que às vezes eu desconheço. Casca que abriga muito mais do que um corpo. Abriga sonhos, pensamentos, saudades, lembranças, sorrisos, lágrimas, abriga tudo que eu construí através do tempo.

E eu gosto de voar. De 0h às 5h da manhã. Sou só eu, a lua e o ar.

E quando o sol aparece, eu tenho que voltar, esconder as asas que me levitavam no ar.

Não, eu não sei voar.

Nem tudo que penso é dito, mas tudo que digo, eu penso.

Eu pensei que seria legal se fosse verdade, mas não é.

Nesse horário eu vôo de uma outra forma, não menos eficiente.

Sou quase um pássaro decadente de asas, mas alguém que voa com os pés no chão.

E as asas, que me foram negadas,

Hoje me fazem voar com o coração.

Sopro



Cansou-se de ouvir palavras sem sentido,

Deixou de lado aquele sorriso sonhado,

Hoje guarda consigo as estrelas e os sonhos vividos,

Frutos de seus gritos calados.


E ao fechar os olhos se ouve a canção de ontem,

E ao abrir os mesmos se enxerga a barulho de hoje.

Tanto ruído por tão pouca voz sincera,

Tanto silêncio por tão pouco gesto isento.


Por muito tempo, calar-se foi um tormento.

A amargura de antes agora fala de vida

E sopra por todo canto a luz que guardara aqui dentro.


A persuasão do correto estava errada,

E o que parecia ilusão era, de fato, real.

Assim pensou que sua história era mentira,

Fruto do que ouvira, mas nada é igual.


Neste momento seu rosto estava sem foco,

Centrado na complexidade dos seus pensamentos.

E a mesma voz que ontem era rouca,

Hoje promove canções aqui dentro.

Perfeição


Praia e sol,

Vento e cabelos compridos,

Sandálias e vestidos,

Comida e sal.


Ele e ela,

Flor e primavera,

Arroz e feijão,

Verão e temporal.


Crianças e parque,

Mulher e ataque,

Vela e castiçal.


Atalho e destino,

Abrigo e amigo,

Frio e cobertor.


Amor e coração,

Voz e canção,

Gotas de chuva e chão.


Tudo que mistura,

Dura.

Tudo que separa,

Em algum lugar continua.


Num lugar chamado coração,

Onde um dia formou um casal,

Hoje abriga a perfeição.

Degelar


Corre pra cá,

Vem me amar,

Ver o dia nascer aqui do céu.

Embala-me com teu corpo pelo ar.

Vem juntar,

O tudo e o nada que nos completa.


Venha ser a parte que me resta

Que define minha alma,

Que contesta

Tudo que eu sou.


Venha ser o satélite que me guia,

Minha melhor companhia,

O meu tato e paladar.


Minhas mãos que correm pro seu rosto,

Nem que seja para uma lágrima enxugar.


E agora, noite fria de agosto,

Congela mais que o inverno polar.


Mas se tenho ao meu lado o oposto

Do gosto,

Do jeito que vier se jogar.

O frio lá fora há de passar...


E o coração que era de gelo,

Hoje ao te ter ao meu lado,

Poderá, enfim,

Amar.

Verdades que na boca se escondem


Da boca pra fora,

Muita coisa se fala.

Muitos erros se mostram,

Verdades que não convém.


Da boca pra dentro,

Muita coisa se esconde.

Muitas verdades se encostam,

Erros que se detêm.


Da boca pra fora,

Eu disse adeus.

Joguei as cartas na mesa,

Fui-me embora.


Da boca pra dentro,

Eu queria pedir desculpas,

Ajoelhar-me feita uma maluca,

Pedir-te para ficar.


Do lado de fora da boca,

Um sorriso se esconde.

Só Deus sabe onde

Isso vai parar.


Do lado de dentro da boca,

O gosto salgado

Da lágrima que me transbordou

Por não te ver voltar.


O que a boca disse,

O coração escondeu.

E o que ele sonhou,

Na boca o seu sonho morreu.


Pecamos muito no dizer,

Quando às vezes,

Calar,

É a melhor das respostas.


Ex-cravo


Ele sempre amparou a flor para que ela não murchasse.

Anulava-se feito um coadjuvante,

E pela flor que seu perfume exalava

Vivia pra fazê-la feliz a cada instante.


Aquela bela e vermelha flor do campo

Que de manhã mostrava todo seu encanto

Ao abrigar os pássaros.


O cravo escravo do tanto que amava

Fazia-se feliz ao encontrá-la

Hoje vive só por não tê-la.


Ah, o ex-cravo agora sofre...

O fim do infinito amor dela.

E a flor, que agora vive por outros amores

Dele só sente pena.


E quando acabará o amor que o alimenta?

E a lembrança dela já está constante.

E faz cair sobre o cravo a saudade,

Do amor que tiveras antes.